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Romantismo tardio



O bisturi menor, pede o doutor. Não usaram anestesia geral, posso ouvir tudo. Estranho, sinto-me tão calmo. Tenho certeza que eles vão conseguir. Eu vou conseguir. Não pode ser a minha hora. Ridículo demais morrer assim, tão gratuitamente, tão covardemente. Passava das duas, eu já estava bêbado na quadra da Unidos da Tijuca quando ela veio falar comigo. Eu me recordava, de início vagamente, depois com bastante clareza. Uma das minhas paixonites da juventude. Escrevi até um poema. Deitada sobre um leito de orgamos, ela sonhava e tinha doces espasmos; os anjos da luz a olhavam de viés, a aurora vinha beijar seus pés, Mõnica, lindos olhos de inverno, por ti os anjos arderão no inferno. Eu tinha mania de anjos. Nunca lhe mostrei o poema, mas servi-me dele em diversas outras paqueras, substituindo o nome. Deu certo algumas vezes. O engraçado é que meus relacionamentos só funcionavam quando eu não me apaixonava. Nunca lidei bem com sentimentos extremos. Me fazem perder o controle, desconcentram-me e geram uma angústia insuportável. No entanto, eu me apaixonava o tempo todo. Às vezes, mais de uma vez por dia. Isso desde criança. Atravessei a adolescência sofrendo esse romantismo doente, esquizóide, brutal. Após milhões de punhetas, ganhei um pouco de experiência com putas baratas dos edifícios da Princesa Isabel, dentre as quais uma lésbica de voz doce e movimentos carinhosos, pela qual me apaixonei. Mais algodão, rápido! Por que o doutor está nervoso? Nunca me senti tão vivo. Aconteceu ontem, como eu ia dizendo, na quadra da Unidos. Eu observava as mulheres dançando e pensava na vida. Ela puxou assunto e pegou um copo para beber comigo. Ainda era linda, embora um pouco envelhecida. Devia ter uns trinta e cinco anos. Pensar que eu passei o diabo por essa mina. Passava tardes inteiras obcecado por ela. Uma vez tomei coragem e pedi seu telefone. Em outro momento liguei e convidei-a para um show do Celso Blues Boy. Ela falou comigo gentilmente, parece que gostou de eu ter ligado, mas me explicou que tinha namorado. Se eu tivesse insistido talvez eu conseguisse alguma coisa.

Há quinze anos estudamos juntos no cursinho pré-vestibular. Ficava muito nervoso quando ela estava presente na sala. O doutor ainda está nervoso, grita com as enfermeiras. Chamei-a para dançar. Eu não era mais o garoto nervoso e tímido daquele tempo. Agora eu tinha experiência. Dançamos, olhando nos olhos um do outro, felizes, bêbados. Eu contei a ela sobre minha paixão antiga. Ela não pareceu surpresa. Beijei-a na boca. Ela usava jeans e tinha cabelos compridos. Uma felicidade inocente e erótica. Ela disse algo sobre seu namorado, eu nem liguei. Reparei num sujeito estranho, agitado, nos observando intensamente. Seria o namorado? Aperto-a contra mim com mais força. Desta vez eu a possuirei. Basta de mulheres perdidas para namorados inconvenientes. A correria aumenta na sala de operação. Mônica dá um grito. Sinto tanta calma. A faca penetra docemente em meu abdômem. Outras pessoas gritam. O médico dá um grito. As paixões não me debilitam como nos tempos de garoto. Sou um cara mais experiente e o amor necessita de organismos resistentes. Agora me sinto preparado para um relacionamento. Pena que tarde demais. O bip do marcador cardíaco vira um som contínuo.